A reforma das 11 enfermarias do Hospital de Praia Brava, em Angra dos Reis, virou um retrato cruel do custo da lentidão do poder público: os recursos federais pleiteados junto ao Ministério da Saúde e todos os tramites licitatórios levaram aproximadamente dois anos para serem concluídos, tempo suficiente para os preços da construção civil corroerem o orçamento de R$ 482.356,00 antes mesmo de a primeira pá ser erguida. Quando o edital finalmente saiu, em março de 2024, o valor já nasceu defasado — e o próprio vencedor, ao se deparar com a realidade do mercado, reconheceu o erro de cálculo e pediu reajuste para executar a obra. A direção do HPB respondeu desclassificando o primeiro colocado e prometendo convocar os demais concorrentes. A convocação não consta no Portal da Transparência (https://feam-etn.org.br/feam/page.php?slug=transparencia). A obra, tampouco.

A justificativa do projeto deixa claro o que está em jogo: os espaços de internação estão em desacordo com as normas vigentes, exigindo adequação, reorganização e modernização para garantir assistência mais qualificada aos usuários do SUS. O escopo cobre uma área de 214 m² — enfermarias, banheiros, berçário e corredores — com troca integral de instalações hidrossanitárias, elétricas, de refrigeração e dos gases medicinais, sem ampliação de leitos ou serviços. Trata-se, exatamente, do tipo de obra mais vulnerável à inflação setorial: cobre para os sistemas de ar-condicionado, tubulações de PVC, conexões, cabos, louças e metais compõem a maior parte do pacote.

E é aí que a demora cobra sua fatura. Os números dos índices oficiais mostram uma escalada implacável: o INCC-M, medido pela FGV, acumulou altas de 6,34% em 2024 e 6,10% em 2025 — mas foram os insumos específicos dessa reforma que explodiram. Segundo levantamentos do setor, o fio de cobre acumulou alta de 16,88% em 12 meses até janeiro de 2026, o metal chegou a subir cerca de 20% no ano passado e a CBIC já alertava, ainda em março, para uma nova onda de reajustes em cadeia. Na prática, afirmam empresas que acompanharam o pleito, os principais materiais da obra praticamente duplicaram de valor no biênio — o que torna qualquer orçamento montado sobre os preços antigos uma peça obsoleta antes mesmo de ser assinada.

O desfecho burocrático transformou o impasse em paralisia. Ao desclassificar o vencedor — sob o argumento de que não seria justo ganhar de outros cinco concorrentes pelo menor preço e, em seguida, pedir correção — a direção ignorou o óbvio: o pedido de reajuste era apenas o sintoma de um orçamento defasado, e não um artifício de má-fé. A solução racional seria revisar o processo. A opção escolhida foi anular o resultado, anunciar a convocação dos participantes do pleito e, depois disso, não fazer absolutamente nada. Nos bastidores, comenta-se que os demais concorrentes teriam desistido da execução por considerar os valores incompatíveis com a realidade atual do mercado — o que, se confirmado, indica que a decisão que se dizia protetora do erário apenas transferiu o problema para um limbo administrativo.

Enquanto a máquina pública patina, quem paga a conta são os pacientes. Homens e mulheres seguem internados em enfermarias que a própria unidade reconhece estarem em desacordo com as normas dos órgãos reguladores, à espera de uma obra que deveria ter começado há dois anos. O prazo previsto no contrato se estende até julho de 2027, mas o relógio corre contra os usuários do SUS: a cada mês de espera, os preços sobem, o orçamento encolhe em termos reais e a distância entre o papel e o canteiro de obras aumenta.

A pergunta que fica é incômoda e inevitável: se a burocracia levou dois anos apenas para liberar o dinheiro, quanto tempo levará para refazer o processo — e quanto custará, daqui a mais dois anos, a reforma que hoje está orçada em R$ 482.356,00? Sem uma posição firme da direção do hospital e dos órgãos responsáveis, o risco é o de sempre: a promessa de modernização se esvaindo na gaveta, enquanto os leitos seguem irregulares e a população espera.