A Corregedoria da Polícia Militar prendeu nesta quarta-feira (18) o tenente-coronel Geraldo Neto, de 53 anos, sob a grave acusação de feminicídio e fraude processual contra sua esposa, a soldado da PM Gisele Alves Santana, de 32 anos. A prisão ocorreu em São José dos Campos, interior de São Paulo, após a Justiça Militar decretar a detenção preventiva do oficial.
Novas evidências, incluindo mensagens extraídas do celular de Geraldo Neto, indicam um histórico de violência e abusos contra Gisele. Os diálogos revelam que, apenas 13 dias antes de sua morte, ocorrida em 18 de fevereiro no apartamento do casal no Brás, região central de São Paulo, a soldado teria sido agredida fisicamente pelo marido.
Histórico de Agressões e Humilhações
As mensagens, obtidas pela Corregedoria, são cruciais para a investigação. Em um dos trechos, datado de 6 de fevereiro (um dia após a suposta agressão), Gisele escreveu: “Você sempre caçando um motivo para brigar. Mas você vai ver só. Você enfiou a mão na minha cara ontem. Gritou comigo hoje”. Os investigadores interpretam a expressão “enfiou a mão” como um claro indício de agressão física, revelando um ambiente relacional marcado por comportamentos agressivos.
Além da violência física, Gisele era submetida a constantes humilhações e machismo. Em outras conversas, ela reclamava do comportamento “babaca” e “sem escrúpulos” do marido, que a desqualificava e até a observava por horas em seu ambiente de trabalho. Mensagens machistas de Geraldo Neto também foram encontradas, como “Lugar de mulher é em casa, cuidando do marido. E não na rua, caçando assunto. Rua é lugar de mulher solteira à procura de macho”.
Para a Corregedoria da PM, esses diálogos não são “meros desentendimentos ocasionais”, mas sim “indícios de violência psicológica reiterada, caracterizada por tentativas de controle, constrangimento e desqualificação da autonomia da Sd PM Gisele”, confirmando um contexto de conflito conjugal e dinâmica de controle.
Reviravolta na Investigação: De Suicídio a Feminicídio
Inicialmente, a morte de Gisele foi classificada como suicídio. Contudo, a denúncia da família sobre o relacionamento tumultuado do casal levou a Polícia Civil a aprofundar as investigações. Após 30 dias de apuração e a anexação de laudos periciais, a conclusão foi categórica: Gisele Alves Santana não cometeu suicídio, mas foi vítima de homicídio.
Laudos Periciais Determinantes:
- Necroscópico: Apontou marcas de dedos no pescoço da vítima, sugerindo que ela desmaiou antes de ser baleada.
- Trajetória do Tiro: Indicou que o disparo foi dado de baixo para cima, com o cano da arma encostado na cabeça, incompatível com a versão inicial.
- Toxicológico: Não encontrou vestígios de álcool ou drogas, descartando a possibilidade de Gisele estar sob efeito de substâncias.
- Residuográfico: Não detectou pólvora nas mãos de Gisele nem de Geraldo.
- Local de Crime: A posição da arma na mão da vítima era incomum para casos de suicídio, onde geralmente a arma é largada.
- Exumação: Permitiram refazer exames complementares, como o necroscópico.
Comportamento Suspeito Pós-Crime
Além das evidências forenses, o comportamento de Geraldo Neto após a morte de Gisele levantou sérias suspeitas. Ele telefonou para a PM pedindo socorro apenas 29 minutos após uma vizinha escutar o tiro. O tenente-coronel afirmou ter tomado banho antes da mulher atirar, mas foi encontrado com o corpo seco pelos socorristas.
Mais alarmante, Geraldo só tomou banho após ligar para um desembargador amigo, que foi à residência, desobedecendo orientações de policiais militares presentes no local. Exames com luminol detectaram sangue de Gisele no box do banheiro e em outros cômodos do apartamento, contrariando a versão do tenente-coronel. Três policiais militares femininas foram posteriormente vistas limpando o imóvel, conduta que levou a Corregedoria a investigar o coronel também por abuso de autoridade.
Desdobramentos Legais
A defesa de Geraldo Neto, por meio do advogado Eugênio Malavasi, alega incompetência da Justiça Militar para o caso, prometendo suscitar um conflito de competência com a Justiça comum. Contudo, o Tribunal de Justiça Militar (TJM) justificou a prisão preventiva pela “garantia da ordem pública, conveniência da instrução criminal e necessidade de preservação da hierarquia e disciplina militares”, destacando o risco de interferência nas investigações.
Após interrogatório e exames de corpo de delito no 8º Distrito Policial (Brás), Geraldo Neto será encaminhado ao Presídio Militar Romão Gomes, na Zona Norte da capital. O Inquérito Policial Militar (IPM) deve ser concluído nos próximos dias, enquanto a Polícia Civil conduz uma investigação paralela para o completo esclarecimento dos fatos.