Uma investigação dos agentes da 166ª DP, sob a coordenação do delegado titular da unidade, Dr. Roberto Ramos, sobre a pesca ilegal de pepino-do-mar, considerada uma iguaria de alto valor no mercado clandestino, acabou revelando um elo com a fabricação de componentes bélicos para o crime organizado, mais precisamente para a organização criminosa Comando Vermelho (CV).

Segundo os investigadores, o homem apontado como líder do esquema também é suspeito de fabricar e dar manutenção em silenciadores de fuzis utilizados por integrantes da facção. A descoberta ocorreu durante a Operação Tritão, deflagrada nesta quarta-feira, dia 11 de março, que cumpriu mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão em Angra dos Reis e na cidade de São Paulo.

“Essa investigação tinha por objetivo apurar a autoria do brutal assassinato do policial Elber, e acabamos descobrindo que um dos envolvidos tem participação em duas estruturas criminosas. Uma dessas estruturas está relacionada à extração ilegal de um organismo marinho, no caso o pepino-do-mar, um animal invertebrado que vive no fundo do mar e que é essencial para o ambiente marinho. Isso porque ele consome matéria orgânica, atuando como uma espécie de ‘lixeiro’ do fundo do mar, ajudando a limpar o ambiente marinho”, explicou o delegado Roberto Ramos.

As investigações começaram após a polícia identificar um esquema organizado de extração ilegal do pepino-do-mar. O produto é considerado uma iguaria de luxo em mercados internacionais, o que alimenta a atuação de grupos criminosos no comércio clandestino.

“Esse organismo é considerado uma iguaria na cultura asiática, razão pela qual possui alto valor econômico. A partir da investigação sobre essa extração ilegal, conseguimos identificar toda a cadeia criminosa envolvida. Empresários paulistas possuem um representante na cidade de Angra dos Reis. Esse representante montou toda uma estrutura local. Essa estrutura consiste na contratação de mergulhadores, que realizam mergulhos no fundo do mar para extrair esses animais. Após a extração, eles são trazidos para o continente, onde passam por um processo de desidratação em estufas. Em seguida, são encaminhados para São Paulo”, disse o policial após a operação.

Esquema estruturado

De acordo com a Polícia Civil, o grupo possuía divisão de tarefas bem definida. Mergulhadores eram responsáveis pela retirada dos animais do fundo do mar e pelo processo de secagem do produto, recebendo cerca de R$ 200 por quilo extraído.

A investigação aponta que o esquema movimentava até R$ 250 mil por mês, valor que demonstra o potencial lucrativo da atividade ilegal. Os financiadores da operação teriam sido identificados como empresários estrangeiros residentes em São Paulo, que sustentavam financeiramente toda a estrutura criminosa.

“Detectamos também grandes somas de dinheiro sendo transferidas por meio de Pix, tudo devidamente documentado. Ao todo, dez pessoas foram identificadas, e foram expedidos mandados de busca em relação a essas dez pessoas”, ressaltou Roberto Ramos.

Silenciadores para armas do Comando Vermelho

Durante as apurações, a polícia identificou que o gerente da organização, responsável pela logística da extração e transporte do produto ilegal, também estaria envolvido na fabricação e manutenção de componentes bélicos, incluindo silenciadores de fuzil utilizados por integrantes do Comando Vermelho.

“A investigação mostrou que essa mesma pessoa que gerencia essa atividade criminosa ligada ao crime ambiental também atua em outra atividade ilícita relacionada a armas de fogo. Ele fabrica armas e fornece armamentos para o tráfico na cidade de Angra dos Reis, mais especificamente para o CV. Detectamos, inclusive, vídeos que comprovam que ele fabrica silenciadores e realiza consertos de armas para integrantes do crime organizado na região. Diante dos elementos reunidos, foi decretada a prisão desse gerente, bem como expedidos mandados de busca e apreensão contra pessoas ligadas a ele. Todas essas medidas estão sendo cumpridas no dia de hoje”, frisou o delegado da 166ª DP.

Durante a operação, os agentes prenderam Igor da Silva Moreira, de 43 anos, apontado como um dos responsáveis pelo esquema de arrecadação e revenda dos pepinos-do-mar, que  também é  investigado pela fabricação de instrumentos bélicos o para o tráfico. Também foi presio o mergulhador Douglas Maia Jezuno que  estava com 30kg de pepino-do-mar em casa, cujo quilo pode ser comercializado por até 2 mil euros, o equivalente a cerca de R$ 12 mil.

As investigações continuam para identificar outros integrantes da organização, possíveis compradores do produto e eventuais ramificações do grupo criminoso.