Angra dos Reis terá uma representação de gala nos desfiles das grandes escolas de samba do Rio de Janeiro no carnaval de 2027. O renomado compositor José Carlos Oliveira, carinhosamente conhecido como José Carlos do Cartório, de 74 anos, é um dos grandes vitoriosos da madrugada do último dia 13 de setembro, assinando sambas-enredos campeões na Acadêmicos do Salgueiro e na Unidos da Tijuca.

A emoção tomou conta das quadras cariocas, mas foi em Angra dos Reis que a notícia ressoou com um sabor ainda mais especial. O momento foi duplamente significativo para José Carlos do Cartório, pois ele dividiu a autoria das composições com Ian Ruas e Caio Miranda, filhos de seu saudoso amigo e ex-parceiro de samba, o médico José Carlos Miranda, que nos deixou em 2022. Ian, angrense e filho caçula, e Caio, filho do meio, celebram as vitórias ao lado de José Carlos, perpetuando uma parceria que transcende gerações.

No Salgueiro, a escola do bairro da Tijuca apresentará o enredo “Laroyê Xica da Silva: a história por trás da história” em 2027. O samba-enredo vencedor é uma obra coletiva assinada por José Carlos, Ian Ruas, Caio Miranda, David Carvalho, Luiz Fernando, Luana Rosa, Fabiano Mattos e Carlão. O tema propõe uma releitura da vida de Xica da Silva, baseada em documentos recém-descobertos em Diamantina, Minas Gerais, incluindo seu testamento, que buscam desmistificar a imagem erotizada que a história lhe atribuiu.

José Carlos do Cartório detalha a riqueza do enredo: “Xica foi uma mulher fora de seu tempo. Ela foi uma verdadeira Mecenas dos grupos teatrais e da igreja, sendo muito católica. Este aspecto sexista que se prendeu a Xica foi uma licença poética dos diversos ramos da cultura, tais como música, cinema, teatro, literatura. No Salgueiro foram cinco seleções até a final, concorrendo com 18 sambas”, explicou o compositor, orgulhoso da jornada até a vitória.

A noite de triunfos continuou na Unidos da Tijuca, onde Ian Ruas, Caio Miranda e José Carlos também assinam o samba vencedor. A composição embala o enredo “A cabeça do Santo”, uma narrativa inspirada no livro homônimo da escritora Socorro Acioli e nas tradicionais “paredes de santo” encontradas no Ceará. Assim como no Salgueiro, a melodia na Unidos da Tijuca foi construída na primeira pessoa, permitindo uma imersão profunda na história.

“O enredo mistura a narração de um fato real, ou seja, a construção da imagem de Santo Antônio numa cidade do interior do Ceará, tendo o prefeito resolvido construir o corpo do santo na praça da cidade e a cabeça distante do local. Na Unidos da Tijuca disputamos com 15 sambas e foram quatro seleções até a final, e exploramos no enredo os sentimentos pelos quais a personagem central do romance que embasou o tema nos passou: amor profundo por sua mãe, ódio pela ausência do pai, felicidade ao descobrir afetos e se descobrir uma pessoa de bem”, revelou José Carlos do Cartório, sublinhando a profundidade lírica da obra.

O compositor descreveu a sensação de êxtase após a dupla vitória: “Nunca experimentei tamanha carga de adrenalina. Só consegui dormir no domingo às 7 da noite, após passar toda a madrugada de sábado acordado e sem beber nada. Uma loucura”.

A trajetória de José Carlos do Cartório no mundo do samba-enredo começou em 2019, ano em que iniciou sua parceria vitoriosa com o saudoso Miranda, culminando na vitória na Portela. Seu currículo inclui participações em disputas de sambas em agremiações de peso como Beija-Flor, Grande Rio, Imperatriz Leopoldinense, e agora, as consagradas Salgueiro e Unidos da Tijuca, solidificando seu nome como um dos grandes talentos da composição carnavalesca.